Encanto é Inesquecível

Eu amo esse filme. Eu realmente amo esse filme. A maneira como ele esquenta meu coração e como impactou minha vida em tão pouco tempo é inacreditável. Quando eu assisti ao lado da minha família quase toda (porque meu pai tava dormindo), já era um dos meus filmes favoritos da Disney. Hoje, depois de ver em torno de 20 vezes (muitas com meu melhor amigo), é um dos meus filmes favoritos no mundo inteiro. Eu não queria escrever sobre ele, porque é um amor inocente, da maneira como uma criança amaria um filme. No entanto, eu sinto que estou pronta para externar esses sentimentos.

Eu não vou perder o tempo de vocês explicando que filme é esse, acho que todo mundo pelo menos já ouviu falar de Encanto. Não é só o filme mais novo de uma das maiores empresas do mundo, como também esteve no topo dos assuntos mais comentados por meses, muito disso por culpa da sua trilha sonora fantástica que reinou nos pódios do Spotify por muito tempo.

Essa análise vai ser longa, o que é o costume na minha escrita, mas eu vou fazer algo diferente. Vou falar do que é de fato importante já nesse primeiro capítulo, então se quer saber a opinião geral e aprofundada sobre o filme, isso já vai ser no início. Normalmente se deixa o mais importante pra depois né? Mas eu pretendo falar de muita coisa sobre esse filme que não é tão importante para vocês então é melhor deixar isso para depois. Obrigada por terem decidido ler.

Um pequeno aviso antes: Essa análise contém spoilers, e não é pouco. Se não assistiram o filme, não precisam ler, assistam Encanto. E se assistirem, podem decidir se querem ou não ler o meu textinho, mas não percam a oportunidade de assistir esse espetáculo. Para mim não tem importância qual método usem para assistir ele e não vou julgar o que decidirem, embora não posso dizer abertamente o que apoio e não apoio em um texto sobre Disney. Façam o que acharem certo, e o que couber no bolso de vocês, mas assistam o filme.

Surface View

Uma visão geral sobre Encanto

Esse é um filme sobre família, e embora cubra com bastante cuidado os problemas que trata, nós já podemos deixar claro que, por se tratar de um filme infantil e da Disney, ele traz uma visão otimista sobre o que trata. Não digo isso como algo ruim, o mais natural no ponto de vista de escrita é que o filme acabe da maneira feliz que ele terminou, e eu não mudaria nada. Mas é bom dizer que esse filme, embora trate de problemas reais, não vai trazer a “dura face da realidade” ou algo assim. Embora isso não invalide os problemas dos personagens, é bom deixar claro que nem todo mundo vai ter esse final feliz que Encanto possui. Ainda assim, não desistam.

O tema principal de Encanto é trauma geracional, que, pelo que eu entendo sobre o assunto, significa que uma geração passa para a seguinte sombras e consequências dos seus traumas passados. Em Encanto, a matriarca da família, Abuela Alma, impõe nos seus filhos e netos responsabilidades e fardos pesados que nenhum deles precisaria ter. Isso cria muitos problemas emocionais nos membros da família Madrigal, alguns bem explorados, enquanto outros são tocados apenas levemente.

Quando Alma tinha acabado de dar a luz a três bebêzinhos, a sua cidade foi invadida por bândidos e ela, com seu marido e outros habitantes da cidade, foram obrigados a fugir de seu lar. Eles não conseguiram escapar dos perigos no entanto, e abuelo Pedro morreu no caminho, tentando proteger sua família. No seu momento mais sombrio, Alma implorou por socorro e uma chama mística em forma de uma vela salvou a vida de todas aquelas pessoas e criou para eles um santuário, um milagroso refúgio da natureza para que eles possam viver em segurança, um Encanto.

Na família Madrigal, que nasceu desses três bebês, as crianças quando chegam aos cinco anos recebem poderes milagrosos. Dolores, por exemplo, tem super audição, Isabela pode criar plantas e flores em qualquer lugar, Luisa é super forte, Camilo transforma seu corpo, e por assim vai. Esses “dons” foram dados a eles para servirem e protegerem as pessoas desse pequeno vilarejo, dando o seu melhor para manter o milagre vivo e não deixar que esse refúgio se perca. E essa responsabilidade cai, majoritariamente, sobre a Abuela. Ela precisa cuidar de toda forma que puder desse lugar, dessa família, e do milagre que eles receberam. O medo de perder tudo e o fardo dessa responsabilidade, fez com que ela passasse para seus descendentes muito mais do que eles podem carregar, sem perceber.

Mira

Isso nos leva a nossa protagonista, a pequena Mirabel, que aos cinco anos acabou por não receber um dom. Mirabel é excluída e tratada de maneira diferente por todas as pessoas na vila, incluindo sua família. Conscientemente ou não, ela é vista como a “ovelha negra”, e isso causa em Mirabel inseguranças e sentimentos de inferioridade. Por isso, ela quer mostrar para sua família que também é especial, e fazer Abuela perceber que ela não é um incômodo, mas parte importante dos Madrigal. Ela quer ser vista e amada como todos na família são.

A história começa de verdade quando Mirabel tem 15 anos, e mais um membro da família vai receber seu dom, o pequenino Antonio. A cerimônia dá certo, e Antonio recebe o incrível poder de conversar com animais. Mas enquanto todos festejavam, Mirabel foi deixada de fora, e no seu momento solitário percebeu rachaduras enormes que se alastravam pela casa toda e chegavam até a vela. Os Madrigal vivem em uma casa mágica que tem consciência, e seu milagre é protegido pela vela que apareceu para Alma décadas atrás. Essas rachaduras são uma ameaça gigante para o milagre da família e Mirabel é, aparentemente, a única pessoa que sabe disso.

“And I glow, ‘cause I
know what my worth is.”

Nossa protagonista decide que ela vai salvar o milagre. Pela família, pela Abuela, e por ela mesma. É aqui que as discussões do filme são desenvolvidas. Os membros da família passam por pressões e dificuldades impostas pela sociedade e pela abuela Alma. Alma busca uma espécie de perfeição em todos da família, e espera que eles sejam indestrutíveis. Luisa, que tem super força, é o Madrigal que tem mais responsabilidades, todas as pessoas confiam nela e até dependem dela. Luisa é levada a exaustão por ser pressionada de todos os lados, enquanto tem medo de mostrar o quão frágil ela é de verdade. Ela não pode mostrar fraqueza, ela tem que ser forte, imbatível, porque é o que todos esperam que ela seja.

“No mistakes!”
“Who am I if I
can’t carry at all?”

Ser a pessoa mais forte no vilarejo faz com que todos olhem para ela como um muro inquebrável, e um guardião que vai proteger todos de tudo. Luisa não pode falhar, Luisa não pode mostrar fraqueza, Luisa não pode chorar, Luisa não pode sentir medo, Luisa não pode ser fraca. Para ela, seu dom é tudo que faz ela ser alguém, e sem seus poderes, ela “não serve pra nada”, e ninguém precisaria dela. Ela tem inseguranças e medos que não pode comentar com ninguém, e nos seus ombros aguenta uma pressão incessante que ela não tem o direito nem a possibilidade de não suportar. Sem rachaduras, sem descanso, sem erros, sem pressão. Luisa precisa ser feita de aço.

Señorita Perfecta Isabela

Isabela, a neta mais velha, além de criar flores, tem um dos papéis mais importantes na família. Ela é a mulher perfeita, em todos os sentidos, e não pode ser qualquer coisa diferente da perfeição. Alma quer que ela represente esses ideais perfeitos, as pessoas da cidade querem que ela seja perfeita, a família toda vê ela como a perfeita Isabela, e ela nunca vai poder ser ela mesma, só pode ser a bonequinha que todos querem que ela seja. Essa pressão por perfeição leva ela até mesmo a aceitar um noivado com um homem que ela não ama, porque faria abuela Alma feliz e seria o melhor para todos, assim ela pensava.

Isabela acidentalmente cria uma flor diferente das outras,
então Abuela a joga fora para manter a perfeição

Com a ajuda da Mirabel ela pôde expor seus sentimentos para sua irmã (que nem sequer tinha uma boa relação com) e, acidentalmente, descobriu quem ela é de verdade. Isabela não é perfeita, ela tem muitos problemas e a verdadeira personalidade dela é completamente diferente do que ela é forçada a ser. Isso é incrivelmente representado em uma música perfeita em que, ao invés de flores, Isabela cria as mais variadas espécies de plantas, que não são vistas como bonitas ou especiais, são plantas normais, algumas perigosas. Até a cor do seu vestido que era rosa muda de cor com o pólem e se torna algo caótico, irreconhecível, mas imperfeitamente Isabela, e isso é tudo que precisa ser.

“The way is clearer ‘cause you’re here, and well, I owe this all to you.”

Essa menina nunca teve a oportunidade de descobrir quem é, porque desde que nasceu é obrigada a ser quem todos querem que ela seja. E essa pessoa que ela precisa ser não pode existir, a perfeição não existe. Isabela é forçada desde o início da sua vida a ser alguém que não pode ser criado, e alcançar ideais e padrões impossíveis pela felicidade de todos, menos a de si mesma. É muito bonito ver ela começar a descobrir quem é, e perceber que ela pode ser quem quiser, e que não importa quem ela seja, nunca vai ser perfeita, e é isso que há de bonito nela. Agora ela pode finalmente viver, e passar quanto tempo precisar para descobrir quem ela é por dentro e expressar para fora seus sentimentos reais.

Bruno

Tío Bruno é um dos membros mais velhos da família, um dos três bebês filhos de Alma que está há 10 anos desaparecido. Ele foi isolado da família porque todos só viam o pior nele, embora ele nunca tivesse culpa de nada. Seu poder é prever o futuro, e suas previsões sobre futuros ruins são vistas como um “pesadelo”. Bruno traz azar, ele faz coisas ruins acontecerem e ele matou meu peixinho.

“Yeah, my gift wasn’t helping the family… but I… but I love my family, you know?”

A natureza mórbida dos seus poderes fez com que ele não pudesse ter muitas relações saudáveis com as pessoas e, por isso, ele é uma pessoa muito tímida e insegura. Bruno foi embora por ter uma visão terrível sobre o Encanto que envolvia Mirabel, e ele não queria pôr a menina em risco divulgando esse segredo. Quando ele foi embora, todos começaram a ver ele como egoísta, e quase como um vilão. Ele é um monstro, um espírito maligno, uma sombra, e não deve ser mencionado em qualquer momento. Bruno foi completamente esquecido, e seu nome se tornou um tabu.

“He sees your dreams, and feasts on your screams.”

Mirabel, Luisa, Isabela e Bruno são os personagens mais importantes do filme, que nos mostram com muito detalhe e objetividade o que a ideia de perfeição tóxica da Abuela pode fazer com a família. Esses são os personagens que fazem a história avançar, e são as ferramentas principais para nos comunicar o que está acontecendo na família Madrigal. Ainda assim, prestando atenção é fácil notar como cada personagem também é afetado por essas pressões perfeccionistas. Em especial, você pode notar como abuela pede demais da sua filha Pepa o tempo todo, não sendo muito empática com ela em relação aos seus sentimentos. Pepa sempre faz o seu melhor para controlar seu poder difícil nos piores momentos, então não é culpa dela quando as coisas saem do controle, mas abuela ainda exige demais.

A maneira como a história nos apresenta e desenvolve esses problemas é muito interessante e bem feita, de modo que tudo fique bem claro e detalhado mesmo na curta duração do filme. A conclusão de todos esses conceitos é muito satisfatória e bonita também. Não tem por que narrar toda essa reta final maravilhosa, mas eu posso dizer que tudo que o filme trabalhou até agora se junta em uma explosão e despenca em cima dos personagens, para ser resolvido em uma incrível e belíssima cena que muito provavelmente fez uma boa parcela de vocês chorarem.

Além de toda essa parte mais profunda, Encanto é um filme muito, muito divertido. As cenas são engraçadas e cativantes, e toda vez que eu assisto eu me pego muito ansiosa para ver alguns momentos incríveis. Minha cena favorita do filme é todo o jantar com os Guzmán. A construção dessa cena é inacreditável e eu me divirto um pouco demais sempre que ela chega. E eu decidi que vou falar sobre ela.

Dolores acabou de descobrir sem querer que a visão do Bruno é sobre a Mirabel e um perigo para o milagre, e que ela é possivelmente a culpada da perda dos poderes da Luisa e das rachaduras na Casita. O jantar iria ser realizado com o objetivo de um noivado entre Mariano e Isabela começar, sendo uma confraternização amigável entre a família Madrigal e os Guzmán. Isso representa algo teoricamente muito grande para a família, segundo Abuela, e todos fazem o seu melhor para a noite ser perfeita. Essa fixação pela perfeição é obviamente porque a Abuela queria que tudo fosse impecável.

Essa é uma cena construída sobre uma tensão de um segredo gigante ser descoberto pela família, no momento mais importante para Abuela e Isabela. “Hoje a noite não podemos ter mais problemas”, foi o que Alma disse. O que faz a cena especial, além da tensão, é o humor. Durante toda ela somos apresentados por uma espécie de desconforto novo em Encanto. Os personagens estão com medo e ansiosos, fazendo o seu melhor para manter tudo sob controle, enquanto Mirabel se esforça o triplo para que os problemas não cheguem a superfície da visão dos Guzmán.

Olhares intensos, expressões memoráveis e estranhas, e um extenso exemplo das personalidades intensas e carismáticas de cada personagem são o que criam o recheio da cena. Tudo isso é ligado por um tango deformado e cada vez mais desconfortável de fundo, casando perfeitamente com cada pequeno momento desse jantar arruinado. As coisas só pioram e pioram, até que todos entram em pânico e só não tem mais como não enxergar a verdade. Mirabel estragou tudo, como todo mundo pensava.

Esse é o print menos caótico que eu consegui

Na cena, Luisa chora desesperadamente pela falta dos seus poderes, a família da Pepa passa o segredo entre si preocupados com o futuro de todos, Mirabel toma as ações mais bizarras para tentar esconder o desastre iminente, enquanto todos sorriem com cara de bunda porque sabem que tudo já deu errado. Mesmo quando você para de rir da cena, ela continua muito divertida e interessante. É uma das coisas que eu mais fico ansiosa para ver sempre que abro o filme de novo.

Isso é o importante sobre o filme, o que ele quer trazer de mais profundo, e uma parte que eu gosto muito dele. Mas eu não ficaria completamente obcecada por ele só nisso. Daqui pra frente vou falar de coisas menores que, para mim, são muito importantes, mas o que era de fato relevante já foi dito. Se quiserem continuar lendo, muito obrigada! Talvez coisas que queriam escutar sobre estejam no restante dessa análise. Mas se forem parar por aqui, muito obrigada também, espero que voltem mais vezes.

The Family Madrigal

O elenco carismático e maravilhoso de Encanto

Uma ótima história é algo essencial e é o que vai mais facilmente conectar as pessoas com a obra. Mas, para mim, a estrela do filme é o seu elenco de personagens bem trabalhados e vibrantes. Com personagens profundos como Alma e Isabela, não é um filme que precisava detalhar tanto todos os membros da família, mas ainda assim o fez. Todos no filme não só desempenham um incrível papel narrativo na história, como por si só são muito originais e interessantes. Realmente não era necessário criar gente tão diferente e detalhada, mas nós recebemos isso.

Algo importante de explicar é que a maioria dos personagens costumam ter uns seis minutos de tela. Isso parece bem pouco, né? Poderia ser. Acontece que, quando você assiste, apenas não parece que os personagens tiveram pouco ou muito tempo de tela. Tudo é perfeitamente balanceado e, mesmo que você quisesse ter visto mais de um personagem específico, dá para concordar facilmente que todos tiveram o tempo de tela que precisavam, e nesse tempo curto, foram muito bem trabalhados.

Burrinho derrubou a pá

Encanto é um filme muito expressivo, e assim como outras animações da Disney, não se contenta em simplesmente posicionar personagens nas cenas. Mesmo que um Madrigal específico não tenha nenhuma importância na cena, ele vai estar expressando sua personalidade e contribuindo da sua maneira com a experiência. Ele não precisa falar, não precisa puxar a cena para ele, Encanto faz questão de detalhar cada cena dos pés a cabeça com vida e carisma.

Isso é uma jogada incrível para vender o filme, criando tantos personagens diferentes e interessantes mas sem ter que dar um pódio especial para todos, o que complicaria muito a existência da obra na sua uma hora e meia. É muito fácil se ligar a qualquer personagem da história e conhecer ele bem o suficiente nesse pouco tempo de tela, porque sempre que eles estiverem no filme vão se mostrar únicos e incríveis.

Isso também abre oportunidade para futuramente esses conceitos serem trabalhados, mas isso é um assunto para depois. A questão é que esses pequenos pedaços da história fazem com que ela seja muito viva, e caracteriza muito bem esse universo simples mas intrigante criado pelo Bush.

Essa caracterização extrema e cuidadosa de cada personagem teve um efeito muito grande em mim, que acabou por gostar mais de muitos personagens que não são tão importantes para a história. É claro, eu amo muito a Mirabel, mas meu personagem favorito é a segunda neta mais velha, a silenciosa Dolores. Eu também acabei me conectando muito com Camilo, que é também um personagem muito querido pelos fãs por sua personalidade marcante.

Além de muito carismáticos, o design dos personagens são muito, muito bonitos. É muito interessante como eles não costumam seguir perfeitamente os maiores padrões de beleza, algo que a Disney costumava fazer com frequência. Já começa muito bem porque esses personagens belíssimos tem em sua grande maioria, pele um pouco mais escura. Eu não entendo desse assunto e sou branca então não vou falar muito sobre isso, mas quase todos os personagens são pessoas de cor, mesmo os do cenário. Eu acho isso incrível porque esses personagens não seriam tão lindos se tivessem pele branca, o design deles é muito bem feito e só funciona dessa maneira.

A sociedade também costuma julgar algumas características que esses personagens apresentam no seu rosto ou cabelos, e eu gostaria de usar como exemplo a protagonista, Mirabel. Mirabel é um anjo, não só em personalidade mas ela é belíssima de verdade. Um dos personagens mais bonitos em um filme cheio de gente linda, e ela tem algumas características que foram padronizadas como “feias”, e eu posso dizer isso porque eu tenho muitas dessas características e sou muito insegura com elas.

Ela é perfeita

Mirabel tem sobrancelhas grossas, nariz grande e usa óculos. A essa altura eu não preciso mencionar o cabelo cacheado porque é uma bandeira vermelha tremenda achar isso uma característica feia, mas é, o cabelo dela não é liso também. Esses detalhes do rosto dela são o motivo para ser um rosto tão bonito, e o design inteiro dela complementa bem essas características. Mais importante que ser bonito no personagem, Encanto simplesmente mostra que são características incríveis no rosto de alguém, e você provavelmente já viu vídeos de crianças dizendo que parecem personagens de Encanto, em especial a menininha que dizia ser a Mirabel.

Uma coisa importante desse elenco é que eles são idênticos a pessoas reais, e parcelas muito grandes de pessoas reais. Ariel em Pequena Sereia parece sim alguém real com sua pele e cabelos, mas uma pessoa que você raramente veria por ter características perfeitas nos padrões de beleza da sociedade. Agora Camilo, Felix, Agustín, e mesmo a Isabela são pessoas que você vê com frequência na rua. Amigos que você tem, família, gente que você conhece. O design dos personagens do filme faz um ótimo trabalho em representar as pessoas que estão assistindo ele, e isso é muito importante em um filme tão grande, que vai ser visto por todo mundo.

Também tinha uma criança linda que parecia o Antonio

Você é maravilhoso e alguém sempre vai reconhecer isso. Embora existam muito mais detalhes de rosto e corpo que Encanto poderia ter representado (como peso, por exemplo), é muito bom que um filme tão grande tenha tentado trazer um pouco mais de aceitação física. Eu fiquei muito feliz quando assisti por minhas sobrancelhas, nariz e óculos, porque ao menos eu conseguia parecer a protagonista de um dos filmes mais conhecidos atualmente. Me fez sentir um pouco melhor, e mesmo que meus cachos não sejam como os da Mirabel, eu passei um dia todo tentando fazer parecer. Não deu certo, mas foi divertido tentar.

Em resumo, são os personagens que me fazem amar tanto esse filme, e eu tenho certeza que isso é verdade para muitas e muitas outras pessoas. E, bem, essa era uma parte importante dessa análise, mas agora vamos dar uma pequena pausa porque eu quero falar de uma coisa que ninguém se importa relacionada a esse assunto. É, eu vou falar sobre a Dolores por um tempo, e você provavelmente não vai querer ver isso, então vai ser separado em um capítulo que você pode simplesmente pular. Se dá pra pular, não incomoda ninguém né? Eu diria que não faço as regras como uma piada mas eu faço mesmo e no meu texto eu não vou calar a boca sobre esse personagem.

Turn It Down

Rosie não cala a boca sobre o personagem secundário
“Have you met Dolores?”

Deus do céu que mulher. A característica mais imediatamente notável sobre essa personagem, é que ela é completamente maravilhosa em aparência. Na minha opinião, de longe a pessoa mais bonita nesse filme. Dolores é fofa, calma e tem o melhor cabelo em um filme que todo mundo tem cabelo incrível. Suas cores vibrantes são muito chamativas e trazem um ar de felicidade pra ela, algo que acontece no lado da Pepa da família, com amarelo e laranja nas suas roupas. Essa mulher parece uma bonequinha, e para uma mulher trans, com certeza seria um objetivo pessoal se eu realmente pudesse parecer como ela.

Completamente adorável

Ela tem olhos grandes e extremamente expressivos, nariz pequeno e arredondado e lábios grandes que se destacam no rosto dela. Isso é especialmente bem feito, porque Dolores é um personagem que não fala muito, mas quando abre a boca é extremamente expressiva por esses detalhes do seu design. Seus olhos também permitem que ela expresse seus sentimentos sem precisar falar, o que ela faz bastante.

É honestamente meio chocante como eu acho ela bonita. Eu estive dizendo para mim mesma que só gostava de meninos e que era completamente hétero, e isso pode ser um pouco ridículo, mas Dolores foi o começo de uma pequena descoberta. Eu acho que eu não acho um personagem tão bonito em muito, muito tempo, e é incrível que Dolores pareça com pessoas que eu vejo na vida real. O cabelo principalmente é bastante comum e muito bonito em qualquer pessoa. Eu tenho medo de falar de qualquer coisa relacionada com cor de pele, mas acho que não seria problemático dizer que a pele negra da Dolores é muito linda. E, é claro, isso não é uma característica de um personagem, obviamente. Pessoas de cor são muito, muito bonitas.

“Slow down!”

Fora de aparência, essa personagem é também muito detalhada de maneira mais sutil que os outros no filme. Não é exatamente difícil notar sua caracterização, Dolores não é um personagem difícil de entender, mas precisa prestar um pouco mais de atenção porque ela fala muito menos que os outros. Talvez uma reação natural do seu poder de escutar, mas Dolores, embora tenha pensamentos, nunca expressa eles. Pode ser que ela tenha muita insegurança como outros personagens, principalmente porque todo mundo quer escutar dela as palavras de outras pessoas e não as dela, mas isso é só interpretação e não é canon.

Só é realmente muito fácil notar que ela reprime seus sentimentos, já que em muitos momentos no filme ela quebra essa personalidade calma e comportada, mostrando ser muito mais animada e um pouco caótica. Reprimir seus sentimentos faz com que ela queira muito soltar eles, e quando ela finalmente consegue, ela joga tudo de uma vez como uma bomba explodindo. É muito feliz pra mim no final do filme ela se divertir um pouco descendo uma corda enquanto canta, ela parecia bem e finalmente liberando algo que ela contém o tempo todo. Ela também tem esses momentos de explosões emocionais quando conversa com Mariano também no fim do filme, e na cena do jantar quando não consegue segurar uma informação importante.

“Let’s gooooo!”

Aliás, embora eu goste muito da piada sobre ela ser fofoqueira, até porque ela escuta a fofoca de todos, Dolores não conta as coisas dos outros. Não só por ela nunca espalhar segredos no filme, mas porque ela nem sequer fala. Tendo em mente que ela escuta absolutamente tudo que acontece na cidade, é muito óbvio que ela guarda segredos com muita frequência e provavelmente tem muitos e muitos de todas as pessoas que só ela sabe (e ela não soube porque quis).

Gosto de imaginar que eles são ótimos amigos
Perdendo a sanidade

O momento que ela acaba por contar o segredo da Mirabel é um contexto diferente. Sem querer saber, ela acabou por escutar uma informação que afeta toda a família profundamente e pode destruir tudo que eles têm. A pressão de ter isso guardado, saber que tudo vai dar errado e não poder avisar ninguém, fez com que ela perdesse a cabeça. E, vale mencionar, antes do caos se instaurar na cena (que é a melhor do filme), ela só tinha contado isso pro seu irmão Camilo, e o que ele fez? Pois é, passou adiante pro seu pai. Felix contou pra Pepa, e Pepa para Julieta. Não foi só Dolores, todo mundo que soube disso não pôde conter a informação e entrou em pânico, exceto Julieta que muito provavelmente queria proteger a filha.

E no momento que ela perde a cabeça e grita o segredo em voz alta para todos, é importante mencionar que ela diz “Estamos perdidos!” no fim, porque essa é a preocupação dela. É um mal tremendo para a família toda e é isso que fez ela, e todos os membros entrarem em pânico.

“We’re doomed!”

Além desses momentos um pouco mais “profundos” (nem tanto) da Dolores, ela também é vista no cenário sendo muito expressiva quando pode. Especialmente na cerimônia do seu irmãozinho, é muito fácil ver como ela tá quase pulando de alegria o tempo todo. Bem, fácil é, mas acredito que pouca gente nessas cenas fica olhando pra um personagem de fundo sem parar, no entanto se você prestar atenção ela tem umas três reações diferentes em dois segundos quando Antonio volta do seu passeio com a onça. Ela tá orgulhosa e muito feliz, e tentando se conter ao máximo. Eu não estou inventando isso também, o filme só realmente expressa isso bem, ela inclusive tem uma rápida parada pra se acalmar.

Esse é meu wallpaper do PC (sério)

Ela é uma mulher doce e se preocupa com sua família. Mesmo que não expresse tanto, ela é bastante emotiva e é fato que ela pensa bastante. Algo difícil de notar é o amor dela pelo Mariano até ela mencionar isso, mas isso sempre esteve lá, ela apenas esconde bem.

Uma boa parte da expressividade da Dolores também é dada pelos momentos que ela de fato fala, quando podemos escutar sua voz. Adassa é uma mulher incrível, belíssima e uma cantora fantástica, e ela deu pra Dolores uma voz memorável e cheia de personalidade. Dolores fala com delicadeza e sua voz suave conforta o coração. Ela é cuidadosa e calma, muito por escutar demais. Escutar ela falar é quase que o mesmo que um ASMR. A voz e atuação da Adassa nessa personagem são incríveis, e não tem como explicar como a Dolores consegue soar doce e gentil em tudo que fala. Mas quando ela fala mais alto e você consegue escutar mais nitidamente o que ela diz, essa voz parece ainda mais bonita e carinhosa.

E, a última coisa, é que eu consigo me relacionar muito com a Dolores nessa situação com Mariano. O amor da minha vida é alguém completamente impossível, e nada pode mudar essa situação (diferente dela, porém). Eu só posso amar ele em silêncio e aproveitar cada segundo que eu escutar a voz dele sem poder fazer nada. Acho que se identificar com personagens pode ser coisa de criança mas honestamente eu não sou tão adulta mesmo.

Se você não pulou esse capítulo, meus pêsames. Vamos voltar pro que tem de importante no filme e, bem, era pra você ter pulado isso aqui, eu realmente não tentei ser profissional falando sobre meu amor. Se você é meu amigo e leu essa parte, que pena, você sabia no que tava se metendo. Eu já irritei muitos dos meus amigos por causa dessa mulher e acho que vou continuar fazendo isso.

Colombia, Mi Encanto

Visuais e música, o Disney em Encanto

É meio difícil falar como esse filme é visualmente bonito sem usar palavras repetidas e expressões que já perderam o significado. Mas não são só modelos, luz, texturas e cores. Cada pequeno frame de Encanto (sem exagero) é belíssimo e muito expressivo. A expressividade dele é principalmente visual, e a quantidade de detalhe nos rostos dos personagens é difícil de acreditar.

“… in three, two, ooneee….”

Não tem como esperar menos de um filme importante da Disney, então nem vale dizer que dá pra perceber o profissionalismo na animação, porque é um filme de uma empresa gigantesca. Só que a maneira como eles fazem expressões vivas e realistas parecerem muito naturais em personagens animados é impressionante. “Realismo” talvez não seja a palavra certa, de fato você consegue ver essas expressões na vida real, mas para usar melhor as possibilidades de uma animação e ajudar na expressividade do filme, algumas são levemente exageradas.

Isso é um fundamento meio básico em animação, para deixar os sentimentos óbvios e fáceis de entender apenas pelo rosto algumas expressões vão ser um pouco mais exageradas. Um bom exemplo é como os olhos já são naturalmente grandes. Só que ninguém realmente quer escutar sobre esses conceitos básicos de animação, muito menos de alguém que não entende nada do processo. O que eu quero dizer é que desde a primeira vez que eu assisti o filme eu fiquei sem palavras sobre o detalhe visual dos personagens (e ainda estou, como podem ver).

É a atenção aos mínimos detalhes que destacam o visual da obra, é uma coisa que daqui a 50 anos não vai ter envelhecido nadinha, e ainda vai impressionar muito as pessoas. Não dá pra não bater de novo na tecla que isso é por conta do dinheiro nesse projeto, mas eles realmente não precisavam ser tão cuidadosos com literalmente todos os frames do filme. Tem muito esforço em fazer Encanto ser bonito e essa beleza dá água nos olhos facilmente.

E, é claro, além da expressividade e animação, as cores do filme são fantásticas. É um filme visualmente muito amigável e confortável, além de muito, muito colorido. Sério, é só dar uma olhada na protagonista, ela tem o arco-íris todo nos detalhes da roupa dela. Isso é especialmente bem feito, representando uma cultura que usa muito cores vivas e diferentes. Esse filme é um completo espetáculo e todo momento se torna um papel de parede novo. As cenas dele parecem aquelas artes conceituais super detalhadas que nunca acabam indo para o projeto final.

Eu não sou muito boa pra falar da parte artística, mas é muito bom que pra Encanto, a música fala por si só. É extremamente provável que você já escutou a música desse filme, então eu não preciso falar muito. A trilha sonora faz um trabalho incrível em desenvolver a história com sentimento e cuidado em cenas fantásticas e memoráveis, mas mais do que isso são composições simplesmente sensacionais.

Música em Encanto é o sentimento de soltar cedo da escola numa sexta-feira. Mesmo se você não gostar completamente de uma parte dela, o produto final, a fusão de um número de coisas diferentes é inevitavelmente muito inteligente e bem pensado. We Don’t Talk About Bruno é uma das músicas mais conhecidas da Disney por um motivo, e é por não ser só o recheio de um bolo maravilhoso e bonito, mas por ser um bolo novo por si só. A trilha sonora é quase tão importante quanto o filme em si, e se tornou completamente independente dele, mesmo que seja ainda melhor escutar enquanto acompanha a história. Encanto é extraordinário.

Mas a trilha sonora não para apenas nas músicas cantadas que representam o filme e a Disney. Encanto é recheado de composições incríveis, criativas e memoráveis que estão presentes durante todo o filme. Com melodias cativantes e emocionantes que fazem parte apenas da seção instrumental do filme, tocando de fundo. Músicas como Antonio’s Voice, com um vocal incrível falando alto o nome do pequeno Antonio, representando o momento incrível que é só dele, ou The Dysfunctional Tango, uma das composições mais memoráveis do filme que acompanha a melhor cena de todas em toda a sua estranheza, ansiedade e tensão. Minha favorita é The Ultimate Vision, muito pelo hype e pela grandiosidade da cena, finalmente mostrando Bruno usando seus poderes. Encanto é representado por muita coisa, sendo uma obra bastante completa e detalhada. Encanto é realmente extraordinário.

What Else Could We Do

Nem tudo são flores aqui em Encanto

Eu queria começar a falar dos problemas do filme dedicando alguns parágrafos para estabelecer o quanto eu amo ele. Não importa os problemas que ele possa vir a ter, assim como tudo, não vai perder seu valor. Embora essa história pudesse ser melhor, é um dos filmes mais emocionalmente carregados que eu já assisti, feito com simples relacionamentos entre pessoas que se amam acima de tudo.

Da metade do filme pra frente, não existe uma cena ruim e a maioria delas vão acabar com seus sentimentos, não de tristeza. Esse é um dos filmes mais positivos e felizes que podem existir, e as lágrimas mais verdadeiras que você vai ter vai ser por presenciar amor, perdão, aprendizado e, honestamente, mesmo hype. Apesar do que eu vá dizer aqui, esse filme é maravilhoso, muito especial, e se algo pode causar sentimentos tão fortes e se conectar tanto com você, essa coisa simplesmente não pode ser substituída.

Eu assisti Encanto por volta de vinte vezes, e não posso dizer que não pensei nas coisas que vou dizer agora enquanto assistia, mas não impactaram em nada meu amor por essa história. Os problemas do filme, por sinal, são pequenos demais comparados com suas qualidades. Na verdade, podem ser bem pequenos de modo geral, e é isso que eu quero que foquem. Essa seção da análise são alguns pensamentos menores que em nada afetam a experiência, e eu só estou escrevendo isso por querer cobri-lo completamente.

Então, como não é muito importante, vamos ser rápidos. O maior problema do filme é o seu potencial perdido (daí que vem o nome do capítulo, “Que Mais Podíamos Fazer”). Muitos desses problemas podiam ser facilmente resolvidos com 10, 15 ou 20 minutos a mais de filme. Para ser honesta, alguns deles precisaria até de menos.

Existem muitas coisas que um filme poderia fazer para ser melhor ainda, e isso é real para qualquer mídia. Por exemplo, representação LGBT mais explícita faria um bem muito bom a uma obra ao se ligar com as pessoas que a assistem, mas isso é real para quase tudo. Por isso, quero falar de algumas coisas que complementariam a experiência do filme, sua história e mensagem, e que, de certa forma, são meio óbvias ao criar uma obra como essa.

Primeiramente, nós somos apresentados a quatro personagens que mostram com precisão como a família está “quebrada” e não é feliz de verdade. E, sim, o filme mostra sutilmente como alguns outros personagens também são afetados por problemas emocionais majoritariamente causados pelos traumas da Abuela. Só que quatro é uma parcela muito pequena da família. Luisa e Isabela tiveram músicas falando dos seus sentimentos, mas também foram as únicas. Só nos netos, temos seis, e somos apresentados aos problemas de apenas três. Todos esses três são as filhas de Julieta. A família por parte da Pepa não teve maior desenvolvimento apresentado, apenas de forma sutil. Antonio, por exemplo, é bem detalhado no pouco tempo que tem de tela, e de fato é um personagem que não precisa de muito mais mesmo. Só que Camilo e Dolores provavelmente tem problemas a relatar também, e não tiveram essa chance.

Mas, claro, se eles não tem esses problemas, o filme não precisa mostrar, certo? Bem, é isso que eu quero dizer. A família biologicamente conta com dez pessoas (obviamente deixando os maridos de fora), mas somente quatro desses são afetados pelo problema central da casa. Seria muito melhor para a mensagem e impacto da obra se ao menos a maioria da família tivesse maior destaque nesse aspecto. Em mais 10 ou 20 minutos, Camilo e Dolores poderiam facilmente ter músicas próprias sobre suas dificuldades, e com isso, seria uma parte gigante da casa.

Apenas não parece ser proporcional a gravidade das consequências, com o tamanho do problema. De fato, analisando melhor o filme faz bem o desenvolvimento que se propõe a fazer, mas o impacto seria muito maior se uma parte maior da família tivesse essa importância que Mirabel, Bruno, Luisa e Isabela têm. Isso faria o filme bastante completo, e quase perfeito na sua história, além de dar chances melhores de mostrar a conexão da nossa protagonista com a família como um todo, e não com apenas uma parcela dela.

O outro problema é a história da Alma, que poderia ser um pouco mais destacada. Precisa pensar um pouquinho para ter certeza dos seus traumas, das suas responsabilidades e seus medos, algo que podia ser muito mais evidenciado pelo filme. Assim, seria mais fácil entender os motivos dela. Você precisa pensar um pouquinho e, bem, isso não é exatamente ruim, mas todo mundo merece ter ciência dessas informações melhor para sentir o impacto do desenvolvimento da personagem e da história como um todo. Alma não cometeu erros por ser ruim, mas por dificuldades e traumas que ela tem e não tratou. Só seria muito melhor se o telespectador tivesse um contato mais profundo com esses traumas e dificuldades, nos fazendo se apegar muito mais a Abuela e entender melhor o lado dela.

O que mais faz você simpatizar com a Alma é provavelmente só essa cena

E, por último, essa é uma ideia que não defendo tanto, então vou deixar que decidam se é boa ou não. Mas desde a primeira vez que assisti, eu esperava que no final os Madrigal não recebessem seus dons de volta. Isso é porque eles já aprenderam que são especiais sem esses poderes, que eles são muito mais do que mágicos. Agora eles estavam se acostumando a viver sem esses dons, e já eram felizes sem eles. No entanto, eu também acho que embora isso seria mais impactante, também é um clichê, e eu gosto mais de como a história realmente terminou.

E é isso. Como podem ver, não são problemas muito grandes, e esse é um filme bem completo. Mas com essas adições, seria uma experiência quase que completamente fechada, que não precisaria de qualquer material adicional. Tudo bem desenvolvido e detalhado ao máximo, nem teria necessidade de ter uma série para trazer mais conteúdo para certos conceitos e personagens que não foram tão explorados no filme.

We Don’t Talk About the Corn Plate

A forte, dividida e histérica comunidade de Encanto

Encanto é uma criação da Disney, uma importante que foi recebido por todos, então é natural que a fanbase seja muito grande. Nas suas primeiras semanas, essa foi uma comunidade avassaladora, e todo mundo falava do filme. Com o tempo passando, de fato, o número de pessoas falando sobre diminuiu mas, por algum motivo, ele continuou sendo um assunto frequente e popular.

As músicas continuaram estourando em todo lugar, os fãs continuavam falando incessantemente sobre a obra, e essa comunidade continua crescendo, mesmo que não volte ao seu pico histórico do início. Como a Disney não faz nenhum esforço em manter o interesse em Encanto ativo, essa comunidade se mantém por sua própria força, e tem um poder muito grande de manter o filme vivo na cabeça das pessoas. E, para o bem de todos nós, não somos mantidos apenas por nós mesmos (embora eu não seja ativa em geral). Muitas pessoas ligadas ao filme continuam empurrando essa comunidade para frente de formas inacreditáveis.

O próprio criador de Encanto interage com os fãs com frequência, enquanto muitos dos dubladores (de diferentes linguagens) apoiam as criações da comunidade com muito carinho. É como se esses atores incríveis também fizessem parte dessa fanbase, e eles de verdade amam o filme. Toda comunidade tem suas fanarts, fanfics, headcanons e outras coisas, mas Encanto acertou todos os tipos de pessoas de todos os lugares do mundo, e muita gente habilidosa faz parte desse pessoal.

Uma coisa que se destaca bastante são músicas feitas por fãs, em especial Turn It Down e Camilo’s Interlude, que tiveram participações dos dubladores oficiais de alguns personagens. É claro que eu vou dar o holofote pra Adassa que cantou Turn It Down inteira, uma música que saiu maravilhosa pelo esforço de pessoas incríveis da comunidade, e pela ajuda impressionante dessa mulher.

Só que essa é a parte mais artística da comunidade, e o que conseguimos ver na superfície. As pessoas de fora dela vão acabar por ver essas coisas que eu mencionei com frequência, assim como podem ver os materiais adicionais de Encanto que são lançados de tempos em tempos como romances, quadrinhos, ou livros explicando a criação do filme e mostrando as muitas artes feitas na sua produção e concepção. Acontece que isso não representa a comunidade como um todo, apenas a parte que mais se destaca.

O problema é que as pessoas nela, por virem de todos os lados do mundo e da internet, acabam por ser bem divididas. Não exatamente por terem opiniões diferentes sobre gostar ou não de tal personagem, mas existem muitos e muitos conflitos de valores morais entre as pessoas que gostam de Encanto. Algumas pessoas são felizes aqui, porque se mantêm junto de pessoas boas que conheceram e amam o filme juntas. Só que na verdade, essa é uma fanbase que briga o tempo todo, muitas vezes por motivos mais importantes.

Uma parte da comunidade é denominada de “Proshipper”, que são pessoas que defendem que qualquer personagem pode ser um casal com qualquer personagem. Isso significa que nem idade, nem parentesco são limites. Em um filme como esse, que é só sobre família e toca em todas as pessoas ao redor do mundo, é bem óbvio que pessoas assim existam aos montes. Na verdade, eles são uma parcela pequena da comunidade, mas uma que efetivamente se destaca e é comentada o tempo todo, então é meio difícil estar na fanbase de Encanto sem se deparar com eles.

Além disso, é muito normal que a comunidade entre em diversas argumentações raciais, e toque em coisas que não são faladas no filme como LGBTfobia. Discussões sobre esses assuntos são diárias, e talvez ficando em uma bolha específica você consiga escapar, mas esse tipo de coisa vai estar lá o tempo todo. Muitos assuntos bem sensíveis são debatidos com frequência também.

Eu vou dizer que, como qualquer comunidade, existe uma parte boa. E aqui, a parte boa é realmente muito boa. Mas é difícil você entrar nela e escapar da parte ruim, principalmente no Twitter, então recomendo interagir com pessoas que você conhece e conhecer gente legal lentamente se for entrar na comunidade. Eu conheci pessoas incríveis, e algumas delas são ótimos amigos meus hoje, mas mesmo sem interagir muito eu vejo a parte ruim dessa fandom com frequência.

Em nada essas coisas afetam meu amor pelo filme, o que é muito bom. Eu tenho minha visão e meus sentimentos sobre ele que não são alterados pelo que as outras pessoas falam e pensam com ele, e as muitas discussões que são feitas. E, tem algumas coisas que eu vejo que me fazem gostar mais do filme, como algumas ideias sobre personagens que são muito interessantes e que cabem perfeitamente no que é canônico, mas isso é um assunto para o próximo capítulo.

Waiting on a Series

O futuro de Encanto e o que queremos para ele

Bush nos deu um universo que, embora simples, tem um potencial incrível. Nós temos uma pequena certeza e uma quase confirmação de que Encanto é uma “franquia”, e provavelmente vamos receber mais conteúdo em breve… só não sabemos quando. Todos nós esperamos por uma série, mas torcemos que não seja um filme novo. A maneira como Encanto é escrito não abre espaços para uma continuação em forma de cinema, com muito hype e dinheiro envolvido. É um filme simples demais, com uma história muito bem fechada. Mas então, o que uma série traria de diferente?

Uma série podia facilmente expandir os personagens do filme, desenvolver a família e a cidade, enquanto mantém uma aproximação leve e despreocupada em relação a história. O que eu quero dizer é que esse é o universo perfeito para uma série focada no dia a dia dos personagens que foram apresentados. Com problemas menores, e dilemas sentimentais que não afetam a história geral do filme de um modo tão impactante quanto presenciamos. E o filme tem conteúdo para isso?

Encanto tem MUITO conteúdo para uma série, especialmente com os personagens menos explorados. Muitos dos dons apresentados trazem pensamentos e ideias muito interessantes que, de fato, os criadores tiveram antes. Jared Bush, assim como toda a comunidade, sabem que o poder de se transformar em outras pessoas do Camilo é uma ótima maneira de ligar com um pensamento sobre identidade. Por que ser outra pessoa, quando ele pode ser ele mesmo?

Além da parte mais profunda da história com os sentimentos dos personagens que ainda podem ser desenvolvidos, uma série faria um bem maravilhoso em simplesmente colocar esses ótimos e divertidos membros da família em aventuras mais infantis ou não tão importantes. Coisas como o desaparecimento de burros, um episódio sobre um parto na cidade, um Madrigal conseguir um hobby novo, ou a Isabela começar a descobrir quem é de verdade. Tem muita, muita coisa que pode ser feita, e mesmo se usarem uma ideia que já tenha sido pensada em muitos outros desenhos e séries, nunca foi feito usando esses personagens únicos e criativos que amamos tanto.

Por conta do pouco que temos sobre os personagens não temos tantas características confirmadas sobre eles. Coisas como o que eles gostam de comer, estilo de música favorito, seus amigos na cidade… nós, como fãs, falamos muito sobre essas coisas, pelo que conhecemos dos personagens até agora. São o que todo mundo chama de “headcanon”, que é imaginar algo sobre um personagem que não é confirmado, mas realmente possível pelo que sabemos dele. Um headcanon pessoal que eu tenho sobre a Dolores é que ela tem bastante insegurança quanto a falar, porque acredito que ela acha que as pessoas não deem tanta importância para suas palavras, já que todos esperam ouvir dela os pensamentos de outras pessoas que ela acabou escutando.

É muito divertido imaginar as extensas possibilidades que um universo tão divertido pode proporcionar, principalmente por ele ser tão realista e tão familiar. Os personagens vivem coisas que nós vivemos, e mesmo que alguns problemas sejam causados por poderes, podemos nos relacionar porque são coisas que humanos sentem e todos nós somos seres humanos. Uma série tem o potencial para explorar com cuidado esses personagens.

O problema é: quem vai escrever a série? Nós tivemos alguns conteúdos adicionais de Encanto até agora, mas nem todos eles mostram os personagens como conhecemos no filme. Isso é porque essas coisas foram escritas por, obviamente, outras pessoas, mas também porque foi feito antes do filme lançar. Nós só podemos esperar pelo melhor, e que em uma série, nós tenhamos o Camilo doce e brincalhão que conhecemos no cinema, e não o menino insensível dos quadrinhos.

Só que, mesmo que mais nada de Encanto surja no horizonte, ainda estamos felizes com o que temos. É um filme maravilhoso e eu não preciso de mais nada, embora queira ver mais desses personagens incríveis. Não só Dolores, eu daria tudo por ver a Isabela sendo feliz mais alguma vez. Sabe, ela é uma mulher tão animada e eufórica, eu quero muito ver a personalidade real dela sendo explorada, eu quero presenciar a Isabela “desabrochando” (tipo, como flores, em personalidade, não interpretem de outra forma, por favor).

E falar nela me lembra que um assunto muito comentado na comunidade é o fator de representação LGBTQIA+ em Encanto. O filme não nos mostra nada disso, e não exatamente precisa, por não ser sobre isso. Ainda assim, sexualidade ou gênero podem ser bastante arbitrários nos detalhes de um personagem, e seria incrível para a escrita de alguns rostos do filme se eles tivessem algumas dessas características, algo que não influenciaria na história do filme. A dubladora da Isabela disse que tem certeza que a personagem é, na verdade, lésbica, e é o que esperamos. De forma alguma esse tipo de pensamento divertido estraga a mensagem do filme, porque não muda o foco do mesmo, ainda é sobre trauma e pressão. Mas, no caso da Isabela, complementaria muito bem o aspecto de “se descobrir” dela se ela acabasse por desvendar que tipo de atração ela sente. Eu gostaria muito de ver isso, mas para ser sincera, não é algo que eu me importe tanto. Isso não vai mudar os personagens, apenas seria uma característica legal deles, que se a Disney quiser ser covarde, nem precisaria explorar precisamente. É só algo que seria legal, e nada mais.

Gay little hand

Isso é tudo que eu tenho para falar sobre o filme. Essa foi uma das melhores experiências que eu tive esse ano, tanto que eu assisti muitas e muitas vezes. Uma boa parte dessas foi ao lado do meu melhor amigo, e é uma das muitas e muitas coisas que compartilhamos juntas. Eu tinha medo de escrever sobre Encanto, mas eu decidi que eu conseguia, que eu era capaz, então o fiz.

Espero do fundo do coração que tenha sido divertido ler tudo isso. A maior parte disso foi fangirling desesperado, porque eu realmente não tentei ser muito profissional nesse texto. Eu gosto desse filme como uma menina de 13 anos gostaria, da maneira infantil e despreocupada que uma criança amaria algo. Eu vou ser “adulta” legalmente em alguns meses, mas fico muito feliz que posso ser uma criança assim com essas coisas. Não tenho vergonha do texto cringe que escrevi, e espero que não tenham vomitado. Muito obrigada pela leitura, beijos e uma boa noite, embora meus textos não costumam sempre sair de noite.

ISABELA SEU BOY CHEGOU

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